Rodas de samba, musical, regravações... por que está todo mundo homenageando Djavan?

Djavan estreia na cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, sábado, 1º de agosto, o show da turnê 'Djavanear 50 anos – Só sucessos' Divulgação / ...

Rodas de samba, musical, regravações... por que está todo mundo homenageando Djavan?
Rodas de samba, musical, regravações... por que está todo mundo homenageando Djavan? (Foto: Reprodução)

Djavan estreia na cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, sábado, 1º de agosto, o show da turnê 'Djavanear 50 anos – Só sucessos' Divulgação / Produção Djavan "Me dê as flores em vida, o carinho, a mão amiga..." Foi com a citação de um dos versos da música "Quando eu me chamar saudade", de Nelson Cavaquinho, que Arifan Júnior explicou o motivo da criação de uma roda de samba dedicada a tocar músicas de Djavan. Criada no início de 2026, a "Pagodjafãs" é uma das homenagens feitas nos últimos meses ao cantor de 77 anos – 50 deles dedicados à sua carreira musical. O cantor roda o país com uma turnê comemorativa pelas cinco décadas de sua arte. Mas para além disso, muitos outros artistas decidiram homenageá-lo: são rodas de samba pelo Brasil, regravações em diversos gêneros musicais, shows especiais, biografias e até um musical. Mesmo o ano sendo uma efeméride para Djavan, tantas homenagens assim tendem a acontecer em maior número quando são póstumas. E por que, então, tanta gente decidiu entregar flores em vida para Djavan neste momento? Para o colunista Mauro Ferreira, "as pessoas estão tendo consciência de que um ciclo está se fechando." "Está tendo uma passagem de bastão. Os grandes ídolos da MPB estão com, no mínimo 50 anos de carreira, quando não estão em 60. Então alguns já estão fora de cena por questões de saúde, como Milton Nascimento, outros já faleceram, como Gal Costa. E outros, como João Bosco, com 80 anos, e Djavan, com 77, estão fazendo uma revisão da obra, por mais que eles continuem em atividade." "Acho que isso acende um alerta. Tipo: 'ó, esse cara está aqui, ele construiu uma obra gigantesca, ele está vivo, então vamos homenageá-los em vida'. Esse gatilho vem destas revisões que eles mesmos fazem", conclui Mauro. Djavan revela que viagem a Angola mudou a vida dele: 'Confusos eram os outros' O g1 conversou com alguns destes homenageadores para entender como a arte do cantor alagoano inspirou tantos projetos nos últimos meses e saber qual é a representatividade de Dja na vida de cada um deles: Regravações Capa do álbum ‘Canto Djavan’, de Bruna Black, Hodari, Jonathan Ferr, Jota.Pê, Luccas Carlos e Melly Pedro Figueiredo Ainda em 2025, o álbum "Canto Djavan" ganhou o mundo. Jovens estrelas da música nacional, como Jota.Pê, Bruna Black, Hodari, Jonathan Ferr, Luccas Carlos e Melly, interpretaram algumas faixas do artista, e conseguiram trazer assinatura própria para as versões. Ao g1, Jota.Pê afirmou que o motivo que o fez topar participar do projeto foi, exatamente, o próprio Djavan. "Ele é minha maior referência, fazer qualquer coisa que referencie ele é uma honra, então ser convidado para regravar duas músicas dele, num disco repleto de grandes artistas da minha geração? Impossível de recusar." Jota escolheu regravar as faixas "Açai" e "Seduzir". Para o cantor, o fato de homenagear artistas ainda em vida é algo que vem aconteceu nos últimos anos e o deixa muito feliz. "Poder valorizar nossas referências em vida é necessário, celebrá-los em vida", diz. Anitta e Tiee também trouxeram Dja para seus projetos recentes. Ao colocar o set com "Te Devoro / Linha do Equador / Avião / Maçã" em seu álbum "Uma Década Ao Vivo", Tiee explicou que o artista é uma de suas "maiores referências quando o assunto é música feita com alma". Já Anitta escolheu traduzir para o espanhol a música "Azul" para entregar um presente para seu público latino, já que todas as outras faixas de EQUILIBRIVM II são em português. A cantora disse que "Azul" é sua faixa favorita do artista e se conecta com a vulnerabilidade, um dos temas que integram o álbum. Roda de Samba Roda de Samba Pagodjafãs na edição realizada em São Paulo Reprodução/Intagram/Pagodjafãs/Shouriço Thiaguinho já afirmou algumas vezes que Djavan "é muito pagodeiro" e interpretou algumas de suas músicas, como "Um amor puro", no projeto Tardezinha. Além dele, outros pagodeiros e sambistas têm homenageado o artista em diversas rodas de samba em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Uma delas, a Pagodjafãs, nasceu de forma despretensiosa, em janeiro, na ideia de celebrar os 77 anos do cantor. "O encontro foi num bar que fica ali numa encruzilhada perto da Praça da Cruz Vermelha, de fãs (nós) pra outros fãs (que quisessem chegar), pra celebrar o aniversário do Dja. Conclusão: foi o caos! Pois em pleno dia de semana, a rua foi fechada por uma multidão de gente que ama Djavan", relembra Arifan Júnior, músico e um dos criadores da roda de samba “Pagodjafãs”. "Djavan é quase a nossa religião. É um estado de espírito. Um portal de luz, onde a gente caminha por uma estrada de música linda e emocionante. E nessa viagem de prazeres, acessamos também lugares imprevisíveis no campo da imaginação, da poesia, da construção harmônica e de várias possibilidades", cita Arifan, explicando o motivo da homenagem. "E pegando um gancho no trecho do samba de Nelson Cavaquinho [que aparece na abertura desta reportagem], a gente super pensou nessas flores em vida e nesse carinho ao nosso Djavan quando pensamos o nosso pagode." Para Arifan, Djavan merece todas as homenagens. E considera todas válidas, independentemente dos gêneros musicais nos quais sua arte é colocada. "Desde que façam com respeito e responsabilidade. Pois são as homenagens que levam o nome do Dja ainda mais longe, faz a galera querer buscar e aprender o lado B de mestre, e promove que a obra do mestre chegue em corações ainda não habitados pelo mesmo." Musical Djavan – O Musical: Vidas pra Contar chega a Salvador, nos dias 31 de outubro e 1 de novembro Janderson Pires Desde junho de 2025, o ator Raphael Elias roda o Brasil interpretando Djavan no espetáculo "Djavan – O Musical: Vidas pra Contar". Idealizado por Gustavo Nunes, o espetáculo recebeu 8 indicações na 13ª edição do Prêmio Bibi Ferreira. Ao g1, Gustavo contou que já fez outros espetáculos em homenagens a outros artistas ou bandas, como Cássia Eller e Paralamas do Sucesso. "E, agora, o Djavan, um grande expoente da nossa cultura. Tivemos a vontade de homenageá-lo ainda em vida e vimos o quanto isso é importante. É uma grande satisfação, tanto para a gente quanto para ele, ver esse musical, que perpassa praticamente toda a vida e a obra dele, em 50 anos de carreira", conta Gustavo. Além de celebrar o reconhecimento do próprio homenageado com a obra, ele considera que os depoimentos do cantor foram um grande diferencial para a construção do projeto. "Tivemos a sorte de, com ele vivo, poder contar com a contribuição dele e com suas histórias. Não dependemos apenas da pesquisa. É claro que ela foi feita, mas pudemos falar diretamente com ele e saber mais sobre sua trajetória, a partir da fonte principal de tudo." Mas o início não foi assim tão fácil. "No primeiro momento, ele achou estranho e não comprou muito a ideia. Mas depois entendeu a homenagem e como seria feita, gostou e embarcou no projeto." A direção musical do espetáculo ainda leva assinatura de João Viana, filho de Djavan. "Ter a chancela da família é fundamental." Antes de "Djavan – O Musical: Vidas pra Contar", outro musical, o "Djavanear - Um tanto flor, um tanto mar", já homenageava o cantor, ainda em 2023. Nele, Karen Julia, Leila Maria, Mattilla, Paula Santoro e Tontom Périssé traziam uma interpretação feminina do repertório do cantor. Mais projetos especiais Amanda Mendonça canta Djavan em show em homenagem ao cantor Divulgação As cantoras Amanda Mendonça e Vanessa Moreno decidiram dedicar as atuais fases de suas carreiras ao cantor. Amanda está em turnê com um show todo voltado para o cancioneiro de Djavan. A ideia inicial era fazer um grande tributo a um artista da MPB. Como conterrânea do artista, a cantora alagoana não hesitou em escolher o artista. "Além de ser um exímio cantor, compositor e intérprete, ele, igual a mim, fez o movimento de migrar de sua cidade natal [Maceió] em busca do sonho de viver de arte. Sendo assim, tenho muita identificação pelas histórias que suas letras e melodias contam, são uma inspiração para mim", explica a cantora. "Acredito que precisamos valorizar os artistas em vida. É um legado que precisa ser compartilhado com as novas gerações." "Quando pensei em um tributo, pensei em alguém vivo, que pudesse de alguma forma ver ou sentir minha homenagem a ele, por isso Djavan também, por sua tamanha sensibilidade e amor pela arte, para além de suas grandes obras e contribuições inigualáveis para a música popular brasileira e mundial", completa Amanda. A cantora só lamenta que Dja ainda não tenha assistido sua apresentação. "Ficaria muito feliz e honrada. E seria um sonho cantar ao lado dele a música ‘Alagoas’ que ele fez em homenagem a nossa terra." Vanessa Moreno canta nove músicas de Djavan em álbum gravado em estúdio com produção musical de Fi Maróstica Rapha Moraes – O Filme Produções / Divulgação Já Vanessa fez um álbum de regravações do artista depois de preparar um show dedicado às obras de Dja. "Comecei essa pesquisa de querer cantar músicas dele com quase 100 músicas. Aí fomos reduzindo, até chegar nas músicas do show, e depois, nas 9 músicas que compõem esse disco", explica. A cantora, que tem "Azul" como uma das primeiras músicas que aprendeu a tocar no violão ainda na adolescência, diz que, para ela, Djavan representa "criatividade e liberdade". "Esse lugar de liberdade criativa que a música dele proporciona é muito inspirador pra mim." Vanessa ainda analisou o fato de muita gente fazer críticas sobre a forma de compor do artista, mas, ainda assim, ele conseguir chegar a um público tão diverso e se conectar com vários gêneros musicais. "O rebuscamento dele está justamente na simplicidade com que ele se comunica. Em relação às letras, é muito interessante porque ele não traz a coisa pronta. Ele traz imagens pra que a gente forme o significado na cabeça da gente com as informações que a gente tem, e a partir da atmosfera que ele fornece. Isso é muito rico." "São melodias muito bonitas. Harmonias muito diferentes. E a rítmica muito presente nas composições dele fazem com que ele tenha uma maneira muito singular de ser música nesse planeta."

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