Zélia Duncan e Fitti buscam a 'virtude do exagero' em show sobre as paixões de Angela Maria e Cauby Peixoto
Zélia Duncan (à esquerda) e Fitti mergulham no universo de Angela Maria (1929 – 2018) e Cauby Peixoto (1931 – 2016) em show no Teatro Iguatemi, em São Pa...
Zélia Duncan (à esquerda) e Fitti mergulham no universo de Angela Maria (1929 – 2018) e Cauby Peixoto (1931 – 2016) em show no Teatro Iguatemi, em São Paulo (SP) Ricardo Reis / Divulgação ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Zélia & Fitti ⟺ Angela & Cauby Artistas: Zélia Duncan e Fitti Data e local: 15 de abril de 2026 no Teatro Iguatemi (São Paulo, SP) Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ Símbolos de um Brasil sentimental erguido em um passado já remoto, em que o melodrama escorria por cancioneiro de tintas folhetinescas, as vozes de Angela Maria (13 de maio de 1929 – 29 de setembro de 2018) e Cauby Peixoto (10 de fevereiro de 1931 – 15 de maio de 2016) atravessam o tempo, ecoando como exemplos de época em que mais era mais. Cantores fluminenses da era do rádio, tempo em que a fartura vocal e emocional era requisito básico para qualquer intérprete assumir o microfone no Brasil pré-Bossa Nova dominado pelo bolero e pelo samba-canção, gêneros musicais melodramáticos pela própria natureza romântica, Angela & Cauby personificaram – separados e sobretudo juntos em discos e shows memoráveis – a “virtude do exagero” mencionada no roteiro elaborado pelo DJ Zé Pedro para o show em que Zélia Duncan e Fitti adentraram o universo passional de Angela Maria e Cauby Peixoto. Atração do Teatro Iguatemi na quarta e na quinta-feira passadas, 15 e 16 de abril, o show “Zélia & Fitti ⟺ Angela & Cauby” chegou à cena na cidade de São Paulo (SP) com muito mais méritos do que entraves. Sob a direção elegante de José Maurício Machline e Giovanna Machline, calcada na alternância de tons (inclusive dos figurinos elaborados em preto e branco) e de timbres de duas vozes que friccionam os limites de gênero, Zélia Duncan e Fitti tiveram como obstáculo o excesso de falas e informações do roteiro intrusivo. Foi nas brechas desse roteiro por vezes excessivamente didático que os intérpretes perseguiram a “virtude do exagero” e estabeleceram alguma conexão emocional com a plateia. Com graves profundos capazes de evocar um registro vocal masculino, Zélia Duncan se movimentou bem em cena desde que surgiu no corredor da plateia cantando “Amendoim torradinho” (Henrique Beltrão, 1955), tema sensual do repertório de Angela que Ney Matogrosso soube reviver com precisão. O número de abertura, com Fitti aparecendo do lado oposto da plateia, já exemplificou o requinte da direção, reiterado ao longo da apresentação. A gravidade da voz de Zélia Duncan lapidou “A pérola e o rubi” (Jay Livingston e Ray Evans em versão em português de Haroldo Barbosa, 1955), acendeu “Fósforo queimado” (Paulo Menezes, Milton Legey e Roberto Lamego, 1953) sem se inflamar e traduziu bem o pântano de solidão em que está imerso o eu-lírico do “Bolero de Satã” (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976), um dos grandes momentos do show. Em contrapartida, faltou melodrama no canto do samba-canção “Matriz ou filial” (Lúcio Cardim, 1965). Fitti de início pareceu ofuscado pela presença de Zélia, sem exibir a teatralidade e a força vocal evidenciadas no impecável show em que interpreta o repertório de Ney Matogrosso, mas o cantor foi crescendo em cena até a apoteose com o mambo “Babalu” (Margarita Lecuona, 1939), emblema do repertório de Angela Maria. Com a voz de timbre elástico que alcança áreas femininas, Fitti encarou “Que será?” (Marino Pinto e Mário Rossi, 1950) – sucesso de Dalva de Oliveira (1917 – 1972) regravado por Angela no álbum “Apenas mulher” (1980) e no tributo fonográfico dedicado em 2017 à colega da era do rádio – e, com vivacidade rítmica, fez valer o sangue pernambucano no suingue nordestino que diluiu a sofrência da guarânia “Cabecinha no ombro” (Paulo Borges, 1957). Esse standard sertanejo é dissociado das vozes de Angela e Cauby, embora tenha sido gravado ao vivo pela cantora em álbum de 1979 assinado com Agnaldo Timóteo (1936 – 2021), cantor que transitou pelo mesmo universo folhetinesco de Angela e Cauby. Entre solos, entre diálogos travados pelos intérpretes com informalidade fora de sintonia com o repertório e entre oportunas récitas de letras de músicas como os sambas-canção “Nunca” (Lupicínio Rodrigues, 1952), “Quando tu passas por mim” (Antonio Maria e Vinicius de Moraes, 1953) e “Castigo” (Dolores Duran, 1958), o roteiro abriu espaço para os duetos como “Miss Suéter” (João Bosco e Aldir Blanc, 1976) e “Tango pra Tereza” (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1975), dois pontos altos do show pelo entrosamento entre os intérpretes. Alternando o branco e o preto dos figurinos do estilista Rober Dognani, Fitti e Zélia Duncan se afinaram ao longo do show, entre solos e duetos feitos sob direção musical de Webster Santos, reavivando músicas como “Brigas” (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1966) e “Somos iguais” (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1964) até chegarem ao ápice com “Bastidores” (Chico Buarque, 1980). Nem Zélia Duncan nem Fitti são cantores vocacionados para o melodrama, para o exagero virtuoso que pautou as trajetórias afins de Angela Maria e Cauby Peixoto na música popular do Brasil. Contudo, é desse contraste que se alimenta “Zélia & Fitti ⟺ Angela & Cauby”, show que, se eliminadas as gorduras do roteiro, tem cacife para voltar à cena e seduzir outros públicos pela elegância da direção e pela força de repertório de um tempo ido que desafia o hype e as modas, permanecendo firme e forte na memória afetiva do Brasil. ♪ O colunista e crítico musical do g1 viajou a São Paulo (SP) a convite do Teatro Iguatemi e do diretor do show, José Maurício Machline. Zélia Duncan (de pé) e Fitti ocupam bem o palco do Teatro Iguatemi sob direção de José Maurício Machline e Giovanna Machline Ricardo Reis / Divulgação